O início do ano costuma ser apresentado como um convite ao entusiasmo. Novos planos, novas metas, um “novo eu”. No entanto, para muitas pessoas, esse período é vivido com cansaço, irritação e uma estranha sensação de inadequação.
E as perguntas que surgem, quase sempre em silêncio, são: “Por que eu não estou melhor?” “Porque não fiz o que prometi para esse ano?” “Vou conseguir desta vez?” Um sufocamento e uma expectativa forte que depositamos e exigimos de nós mesmos em toda virada de ano.
Do ponto de vista psíquico, o ano muda no calendário, mas o sujeito não reinicia do zero. O corpo carrega marcas, o desejo tem seu próprio tempo e a vida psíquica não obedece à lógica da virada simbólica do réveillon.
Uma parte de nós ainda deseja permanecer no ritmo do descanso, do adiamento, do prazer sem cobrança. Outra parte exige produtividade, decisão, foco e resultados imediatos. Entre essas duas forças, o ego tenta organizar a vida possível, e muitas vezes se sente sobrecarregado.
Não é raro que, nesse período, apareçam dificuldades para retomar a rotina, sensação de fracasso antes mesmo de tentar, culpa por não estar animado e ansiedade diante de expectativas muito altas. O problema, frequentemente, não está na falta de motivação, mas no excesso de exigência. O início do ano costuma reativar ideais rígidos: “agora vai”, “este é o ano certo”, “não posso errar de novo”. Quando esses ideais se tornam cruéis, o sujeito entra em conflito consigo mesmo.
Talvez seja importante pensar que o começo do ano não seja um ponto de partida absoluto, mas um tempo de desejo de mudança, de grande esforço psíquico. Um momento em que o desejo ainda se reorganiza, os vínculos retomam seu ritmo e o sujeito precisa de tempo para se situar novamente no mundo.
Nem todo início pede aceleração, alguns inícios pedem escuta. Nem todo recomeço precisa ser decidido agora. Talvez o mais cuidadoso seja permitir que o ano comece aos poucos, do jeito que a nossa capacidade psíquica suporta, elaborando esse novo começo e as novidades deste ano que estão por vir.