O feminicídio é um problema de quem? É problema de todos nós! Muitos casos têm vindo à tona na mídia, e isso nos alerta para a recorrência desta barbaridade. O feminicídio, previsto no Código Penal brasileiro como o homicídio de uma mulher motivado por sua condição de gênero feminino, constitui a expressão mais extrema da violência de gênero. Embora juridicamente o feminicídio só seja caracterizado após a morte, ele é precedido por um conjunto de violências que revelam um problema estrutural e social de grandes proporções. Por isso, compreendê-lo como um problema público implica reconhecer que sua prevenção não se restringe ao âmbito privado, mas exige participação ativa da sociedade, instituições e políticas públicas.
Este texto tem como objetivo contribuir para a prevenção do feminicídio, considerando que ele raramente se instala de forma abrupta. Em geral, os relacionamentos abusivos começam com sinais sutis, frequentemente naturalizados ou confundidos com cuidado ou interesse. Pequenas chantagens emocionais, exigências de satisfação sobre horários e rotinas, críticas disfarçadas de preocupação e imposições sobre vestimentas e circulação social constituem alguns dos primeiros indicadores. Não raro, familiares e pessoas próximas percebem essas mudanças antes da própria vítima, que pode interpretar tais comportamentos como características individuais do parceiro, e não como manifestações de controle.
Conforme o tempo passa, essas ações tendem a se intensificar. O isolamento social, quando o agressor restringe saídas, contato com amigos, família ou ambiente de trabalho, é uma das estratégias mais comuns, pois fragiliza a rede de apoio da mulher. Em paralelo, surgem práticas de vigilância, como o monitoramento constante do celular, das redes sociais e das interações cotidianas. Muitas vezes, esse controle se estende ao campo financeiro, limitando o acesso da mulher a recursos que garantiriam autonomia e segurança. Quando a independência emocional, social e econômica é corroída, a vulnerabilidade da vítima aumenta e o agressor passa a ter maior poder sobre sua vida.
É nesse contexto que outras formas de violência emergem, como humilhações, ameaças, agressões psicológicas e, em muitos casos, violência física e sexual. Apesar de diferenças entre os casos, um elemento é recorrente: a percepção do agressor de que a mulher é uma posse, alguém que deve cumprir suas expectativas e que está errada quando não atende às suas demandas. Esse sentimento de propriedade, sustentado por padrões machistas e desigualdades históricas, compõe a base simbólica e moral que possibilita a existência do feminicídio.
Frente a essa realidade, a prevenção do feminicídio exige que a sociedade desenvolva sensibilidade para identificar sinais de relacionamentos abusivos e capacidade de intervenção. Isso significa reconhecer que ciúme excessivo, controle sobre a rotina, restrição de liberdade, manipulação emocional, destruição de objetos e ameaças não são comportamentos isolados, mas possíveis indicadores de risco. É igualmente fundamental que todos, familiares, profissionais, vizinhos, amigos e instituições, saibam para onde direcionar uma mulher em situação de violência. Delegacias da Mulher, a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), os CRAS, CREAS, Centros de Referência da Mulher e serviços de saúde constituem pilares da rede de proteção, oferecendo acolhimento jurídico, social, psicológico e emergencial.
Além disso, é imprescindível considerar os impactos emocionais que a violência de gênero produz. Mulheres que vivenciam agressões podem desenvolver ansiedade, depressão, estresse pós-traumático, culpa e vergonha. Por isso, o acompanhamento psicológico é essencial não apenas para auxiliar a mulher a compreender o ciclo da violência, mas também para reconstruir sua autoestima e sua capacidade de decisão.
É importante reforçar que nenhuma vítima deve assumir a culpa pela violência sofrida; essa responsabilização equivocada é parte do próprio ciclo abusivo e precisa ser desconstruída.
Assim, compreender o feminicídio como um problema público significa reconhecer que sua prevenção depende de informação, acolhimento, políticas públicas efetivas e engajamento social. Quanto mais cedo os sinais de abuso forem identificados e denunciados, maiores são as chances de interromper o ciclo da violência e impedir que ele evolua para o desfecho fatal. A sociedade tem, portanto, o dever ético e coletivo de promover ambientes seguros, romper com padrões que naturalizam o controle e a violência e fortalecer redes de apoio que garantam autonomia e proteção às mulheres.
Na minha atuação clínica como psicólogo em Gramado/RS, observo a importância do acompanhamento psicológico nestes casos. A psicoterapia possibilita o fortalecimento emocional e social, um maior entendimento das próprias vivências e das angústias que afetam a todos, mas de maneiras diferentes. Não relute em buscar auxílio, você é seu maior bem.